sábado, 7 de julho de 2012

Marina Tsvetáieva (1892 - 1941)


Sou feliz por viver exemplarmente:
Como o sol - o pêndulo - o calendário.
Ser ermitã mundana de bom porte,
Sábia - como qualquer ser vivente.

E saber: o Espírito - meu companheiro, o Espírito -
meu  capataz!
Entrar sem anunciar, como o raio e o olhar.
Viver como escrevo: conciso e exemplar, -
Como deus ordenou e os amigos não aconselham. (1918)



DO CICLO O COMEDIANTE


Tua boca fresca é um beijo desmedido...
- E isto é tudo, e toda sou pedido.
Quem sou agora? - Uma? - Não, milhar!
Sou a conquista - não o conquistar!

É isso amor ou - mera admiração?
Vezo da pena ou - causa primeira?
Será tristeza por não ser um anjo?
Ou certo fingimento - por inclinação...

- Encanto dos olhos, alma sofrida,
Risco de pena - ah! - tanto faz, no entanto,
Como chamem esses lábios - enquanto
Tua boca fresca - um beijo desmedido! (1918)




Para minha pobre fragilidade
Olhas, sem dissipar palavras.
Tu és pedra, mas eu canto,
És estátua, mas eu voo levanto.

Eu sei que o maio mais terno
Não é nada, aos olhos do Eterno.
Mas eu sou pássaro - e a mal não leve,
Se sobre mim pousou uma lei mais leve.  (1920)




Poemas selecionados em "Indícios Flutuantes": seleção e tradução de Aurora F.
Bernardini, Editora Martins Fontes, 2006.

2 comentários:

  1. Encantada Cris. Ler teus versos é flutuar pelos caminhos mais ocultos da [minha] mente ... Complexo, intenso, mas sobretudo agradável e envolvente. Adorei! Abraços!

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  2. Obrigada, Vanessa! Concordo contigo: os versos da Marina são, ao mesmo tempo, intensos, densos e envolventes! Um beijo, Cris.

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