terça-feira, 29 de junho de 2010

De DILAN CAMARGO, no livro "A fala de Adão".

NÃO SEI

          "não sei como dizer-te que minha voz te procura"
                                                                   Herberto Helder

Não sei como dizer-te
que minha vida te procura.
Não mais a minha voz
ela chamou teu nome no abismo
é minha vida que vai ficando madura
e não sei como dizer-te
que ela te procura.

Não sei como dizer-te
que minha vida te procura.
Que ela se anima nos respiros dos teus olhos
e isso te atormenta
minha vida te procura e te amedronta
e maiores serão os teus receios
que mil vidas em mim te procuram.

Não sei como dizer-te
que minha vida te procura.
E o que será de ti na minha vida
dos teus medos na minha ternura
se cabem ainda mais vidas na minha
da primeira à última das vidas
e se ela te procura...




O poeta Dilan Camargo apresenta "Autores e Livros", na TV Assembléia,
Canal 16 da NET, aos domingos, às 21:30hs.
Excelente programa, por onde passam escritores e poetas, num bate-papo guiado pela inteligência e sensibilidade de Dilan.

domingo, 27 de junho de 2010

TUA BOCA, de Maria Braga Horta

Tua boca é para mim carmínea taça
em cujas bordas sorvo, trago a trago,
o divino hidromel com que embriago
o meu sonho de amor feito em fumaça!

Tua boca é um rubro cálice sem jaça
em que meus lábios, trêmulos, afago
na incontida volúpia em que divago:
- Vivamos nosso amor...que a vida passa!

Tua boca é a minha síntese vital,
em que fica suspenso o meu ideal,
em que eu prendo minha alma semilouca!

Tua boca é um sol ardente, em chama e em brasas:
sol do equador, que queima minhas asas,
as asas de rubis da minha boca!

sábado, 26 de junho de 2010

ADÉLIA PRADO

CASAMENTO

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como 'este foi difícil'
'prateou no ar dando rabanadas'
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

PORNOPOPPOCKET, de Paula Taitelbaum

Meu lugar preferido
é perto do seu ouvido
nas dobras da sua orelha
onde minha língua passeia
sem sair do lugar
é lá que enfio bem fundo
o verbo mais imundo
que consigo encontrar.


Você esticado na cama
feito uma carreira de pó
tenho gana de lhe cheirar inteiro
feito louca, de uma vez só.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Na PALAVRARIA


O poeta Alexandre Brito, autografando "Metalíngua", dia 18/06, na Palavraria.

Do outro lado da mesa, "No Assoalho Duro", 2ª edição do livro de Ronald Augusto, poeta e músico,
que também autografava seu livro de poemas.
















Ronald Augusto e eu, batendo papo na Palavraria.

terça-feira, 22 de junho de 2010

2º motivo da rosa, de Cecília Meireles

   
A Mario de Andrade 

Por mais que te celebre, não me escutas,
embora em forma e nácar te assemelhes
à concha soante, à musical orelha
que grava o mar nas íntimas volutas.

Deponho-te em cristal, defronte a espelhos,
sem eco de cisternas ou de grutas...
Ausências e cegueiras absolutas
ofereces às vespas e às abelhas.

E a quem te adora, ó surda e silenciosa,
e cega e bela e interminável rosa,
que em tempo e aroma e verso te transmutas!

Sem terra nem estrelas brilhas, presa
a meu sonho, insensível à beleza
que és e não sabes, porque não me escutas...

segunda-feira, 21 de junho de 2010

JOSÉ SARAMAGO (1922-2010)

Em "Cadernos de Lanzarote", no Diário ll, 1994, Saramago diz o seguinte, sobre a publicação dos "Cadernos...":

9 de Janeiro

          Assim são as coisas. Gabei-me aqui de não ter gasto muito tempo a dissuadir o Zeferino Coelho da sua vontade de levar os Cadernos para os publicar já, e afinal o José Manuel Mendes levou ainda menos a convencer-me do contrário. Usou de um argumento para o qual não encontrei resposta: que as minhas dúvidas e hesitações quanto à oportunidade da publicação não seriam aclaradas nem resolvidas pelo tempo, uma vez que o livro continuaria a ser, nesse e em todos os futuros, aquilo que é hoje: um comentário sem preconceitos sobre casos e gente, o discorrer de alguém que quer deitar a mão ao tempo que passa, como se dissesse: "Não vás tão depressa, deixa um sinal de ti." Compreendi que a relutância provinha só de um temor não confessado a enfrentar-me com reacções suscitadas por referências feitas nestas páginas a pessoas e procedimentos. Na verdade, ainda tenho muito que aprender com os escritores de barba dura, a quem nada faz recuar, como Vergílio Ferreira...