sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Adélia Prado!

 

Do livro A DURAÇÃO DO DIA (Editora Record, 2010),

 


ANJO MAU


O que desejo é o corpo
e não beijo.
O que desejo é o corpo
e não toco.
Quando vem a dádiva
já tenho o lábio torto de irrisão.
Vai morrer, digo à boca.
Vai secar, digo à mão.
Bela como um arcanjo,
uma força de danação
quer me perder.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Virgínia do Rosário!


Abaixo, dois dos poemas que li no sarau MOLDURAS DO PAGO, dia 12/09, no Piquete Casa do Alegrete, Acampamento Farroupilha. O sarau foi organizado pelo poeta Élvio Vargas e contou, ainda, com a participação de Alcy Cheuiche e Demétrio Xavier.

Poemas da alegretense Virgínia do Rosário:


despedida

o sol escalda
o meio-dia
gota a gota
desinstala as cores

cria só um gema
rubra nas maçãs do rosto

e miragens

estou nublada
daqui a pouco
chovo


olaria

me falas dos tijolos
expostos na tua poesia,
e das asas em pares
- eu diria: - suados poros -
em que me adivinhas

mal sabem, amiga,
teus dedos generosos
o quanto os meus exploram
a argila das tuas palavras
de onde alçam voo os teus tijolos

domingo, 7 de setembro de 2014

Mario Pirata!







O poeta acaba de lançar o livro de poemas VENTONAVEIA (ScripTorium, 2014), juntamente com THE QUICK BROWN FOX JUMPS OVER THE LAZY DOG, de Jorge Rein, contos e A NINFA DRAGÃO, de Julio Zanotta, ficção, todos pelo mesmo selo editorial.

Dois poemas de Mario Pirata que estão no novo livro:

SOLTA

palavra
(s)alta
(b)oca
e fura

a fala
esmurra
doida
dura

nem muita
nem pouca
ela
ainda cura



TANTRA

tanta história para ler
tanta água para beber
tanta coisa para saber
tanta paisagem para ver
tanta palavra para escrever
tanta pessoa para conhecer
e eu aqui
tonto de doer
tentando
te esquecer



P.S. Pirata, obrigada por me dedicar um poema. Fiquei feliz!

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Ainda e mais uma vez, Pablo Neruda!

 
 
 
 

VEINTE POEMAS DE AMOR Y UNA CANCIÓN DESESPERADA (1923-1924)


15

Me gustas cuando callas porque estás como ausente,
y me oyes desde lejos, y mi voz no te toca.
Parece que los ojos se te hubieran volado
y parece que um beso te cerrara la boca.

Como todas las cosas están llenas de mi alma
emerges de las cosas, llena del alma mía.
Mariposa de sueño, te pareces a mi alma,
y te pareces a la palavra melancolía.

Me gustas cuando callas y estás como distante.
Y estás como quejándote, mariposa em arrullo.
Y me oyes desde lejos, y mi voz no te alcanza:
déjame que me calle com el silencio tuyo.

Déjame que te hable también com tu silencio
claro como uma lámpara, simple como um anillo.
Eres como la noche, callada y constelada.
Tu silencio es de estrela, tan lejano y sencillo.

Me gustas cuando callas porque estás como ausente.
Distante y dolorosa como si hubieras muerto.
Una palavra entonces, una sonrisa bastan.
Y estoy alegre, alegre de que no sea cierto.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

CECÍLIA MEIRELES!


 
 

Do livro VAGA MÚSICA (1942):


CANÇÃO EXCÊNTRICA

Ando à procura de espaço
para o desenho da vida.
Em números me embaraço
e perco sempre a medida.
Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
protejo-me num abraço
e gero uma despedida.

Se volto sobre o meu passo,
é já distância perdida.

Meu coração, coisa de aço,
começa a achar um cansaço
esta procura de espaço
para o desenho da vida.
Já por exausta e descrida
não me animo a um breve traço:
- saudosa do que não faço
- do que faço, arrependida.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Paula Taitelbaum!





Do livro PORNOPOPPOCKET (L&PM, 2004):


Débil, fértil, febril
é assim que ela existe
inexata e incoerente
com o corpo latente
a mente letárgica
e os movimentos ilícitos.


A melhor trepada
nem é a que
rasga a blusa
tem lambuzo
faz gritar.
A melhor trepada
é quando ele
me penetra
com o olhar.


Há um gemido cravado
um sussurro entalado
um suspiro parado
entre os grandes
lábios
calados.

domingo, 3 de agosto de 2014

Ana Cristina Cesar!


INÉDITOS E DISPERSOS (1985)
 Poesia/Prosa


ciúmes

Tenho ciúmes deste cigarro que você fuma
Tão distraidamente.  (abril/68)

 

visita

olhos por olhos 
um copo, uma gota dágua
atrás deste flaflu
        desta caixinha de música
        desta bala de goma

teu gosto, tua cor, teu som, teu meu     (15.6.69)