sexta-feira, 9 de março de 2012

SONETOS, de Florbela Espanca.

III

Frêmito do meu corpo a procurar-te,
Febre das minhas mãos na tua pele
Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel,
Doido anseio dos meus braços a abraçar-te,

Olhos buscando os teus por toda a parte,
Sede de beijos, amargor de fel,
Estonteante fome, áspera e cruel,
Que nada existe que a mitigue e a farte!

E vejo-te tão longe! Sinto a tua alma
Junto da minha, uma lagoa calma,
A dizer-me, a cantar que me não amas...

E o meu coração que tu não sentes,
Vai boiando ao acaso das correntes,
Esquife negro sobre um mar de chamas...


Florbela Espanca

quinta-feira, 8 de março de 2012

Dia Internacional da Mulher!

Uma homenagem a todas as mulheres, pela voz da poeta polonesa Wislawa Szymborska.









Vietnã

Mulher, como você se chama? - Não sei.
Quando você nasceu, de onde você vem? - Não sei.
Para que cavou uma toca na terra? - Não sei.
Desde quando está aqui escondida? - Não sei.
Por que mordeu o meu dedo anular? - Não sei.
Não sabe que não vamos te fazer nenhum mal? - Não sei.
De que lado você está? - Não sei.
É a guerra, você tem que escolher. - Não sei.
Tua aldeia ainda existe? - Não sei.
Esses são teus filhos? - São.
                                                                                     (Tradução de Regina Przybycien)

quarta-feira, 7 de março de 2012

Hilda Hilst, no livro "Do Desejo".


VIII


Se te ausentas há paredes em mim.
Friez de ruas duras
E um desvanecimento trêmulo de avencas.
Então me amas? te pões a perguntar.
E eu repito que há paredes, friez
Há molimentos, e nem por isso há chama.
DESEJO é um Todo lustroso de carícias
Uma boca sem forma, um Caracol de Fogo.
DESEJO é uma palavra com a vivez do sangue
E outra com a ferocidade de Um só Amante. 
DESEJO é Outro. Voragem que me habita.

                      
                                 

terça-feira, 6 de março de 2012

Dia da Mulher!

Todos os dias desta semana, vou postar poemas de poetas mulheres, em homenagem ao Dia Internacional da Mulher!!!

Gabriela Mistral

Poeta chilena Gabriela Mistral







DESVELADA

Como soy reina y fui mendiga, ahora
vivo en puro temblor de que me dejes,
y te pregunto, pálida, a cada hora:
" Estás conmigo aún? Ay, no te alejes!"

Quisiera hacer las marchas sonriendo
y confiando ahora que has venido;
pero hasta en el dormir estoy temiendo
y pregunto entre sueños: "No te has ido?".

segunda-feira, 5 de março de 2012

"Noturnos e outros poemas".

Da poeta uruguaia Idea Vilariño,


ENTRE

Entre tus brazos
entre mis brazos
entre las blandas sábanas
entre la noche
tiernos
solos
feroces
entre la sombra
entre las horas
entre
un antes y un después.

sábado, 3 de março de 2012

Cecília Meireles, no livro "Vaga Música" (1942).



CANÇÃO DO CAMINHO


Por aqui vou sem programa,
sem rumo,
sem nenhum itinerário.
O destino de quem ama
é vário,
como o trajeto do fumo.

Minha canção vai comigo.
Vai doce.
Tão sereno é seu compasso
que penso em ti, meu amigo.
- Se fosse,
em vez da canção, teu braço!

Ah! mas logo ali adiante
- tão perto! -
acaba-se a terra bela.
Para este pequeno instante,
decerto,
é melhor ir só com ela.

(Isto são coisas que digo,
que invento,
para achar a vida boa...
A canção que vai comigo
é a forma de esquecimento
do sonho sonhado à toa...)